Batalha na Planície

O elfo avançava em direção aos minotauros, a lâmina baixa, o passo firme, o coração lento.
Sua armadura, riscada e escurecida pelo sangue seco, mal refletia a luz cinzenta do céu. O manto de combate, rasgado e pesado, arrastava-se entre os cadáveres.
Os cabelos verdes, longos e colados pelo suor, eram a única cor que restava naquela paisagem moribunda.
As botas já não distinguiam lama de carne. O campo de Azuma havia se tornado um pântano vermelho.
Ao redor, os minotauros mais jovens o observavam com olhos estreitos e braços tensos e, um a um, recuavam de sua passagem. Nenhum deles ousou ser o primeiro a atacá-lo.
Talvez fosse medo. Talvez fosse sabedoria.
Mas naquela manhã, em meio ao massacre, até os monstros sabiam reconhecer um predador maior.
Hanzol era seu nome.
Do lado sul da planície, os exércitos aliados formavam linhas quebradas entre trincheiras e barricadas de pedra mal erguidas.
Elfos, vermelhos, halflings e humanos lutavam por suas famílias, por suas terras e pela liberdade que os minotauros queriam tomar.
Ali não havia honra na formação, nem glória na organização. Havia cansaço, barro e dentes cerrados.
Próximos ao flanco leste, um trio se destacava em meio ao combate: Rhaenna, Zul’jin e Tibbin combatiam lado a lado.
A humana, já sem flechas na aljava, girava a espada com força mais emocional do que técnica, mantendo à distância dois oponentes menores.
O halfling surgia em meio aos joelhos das criaturas, movendo-se como uma sombra afiada.
Logo atrás deles, Zul’jin, um mago estudioso do oculto de olhos fundos e voz grave, entoava palavras em uma língua que fazia a terra tremer — e as chamas escuras como a noite sairem de suas rachaduras.
No centro da linha, Atalais se levantava sozinho.
Era como um obelisco de obsidiana. Girava sua lança entre o peito e os braços com maestria aprendida não nos salões brancos de Gylden — mas sim na pequena vila de pescadores onde havia crescido, vizinho da majestosa casa de madeira e vidro dos pais de Hanzol.
Foi ele quem o viu primeiro.
A poeira se ergueu no horizonte próximo, e os tambores silenciaram.
De entre os guerreiros minotauros, um deles se adiantou — maior, mais largo, com chifres enfaixados em couro negro e tatuagens de guerra pintadas a fogo.
O Herdeiro de Karruk, tocado pelo Não-Nascido.
Carregava sobre os ombros uma couraça cravada de ossos — humanos e élficos. Na mão, um machado de duas cabeças, largo o suficiente para cortar uma fileira inteira.
Os gritos do lado da coalisao cessaram. Até os mais brutos dentre as fileiras humanas e vermelhas seguraram o fôlego.
Aquilo que se aproximava não era um comandante.
Era uma fera pronta para devorar a todos eles.
A chegada do herdeiro mudou o campo.
Os minotauros rugiram. O chão pareceu estremecer com a batida de suas armas contra os escudos. Onde antes havia cautela, agora havia fervor.
Ele andava com passos pesados, como quem já conhecia o sabor da vitória.
Os monstros se inflamavam ao redor dele — como se apenas sua presença bastasse para apagar o medo.
E, por um instante, os aliados hesitaram.
Rhaenna recuou meio passo. Tibbin parou de sorrir. Zul’jin cerrou os punhos e aumentou o tom de sua conjuração.
Atalais, contudo, não se moveu.
O jovem firmou os pés na lama, ergueu a lança e soltou o ar entre os dentes.
— Comigo, então — disse, baixo.
A criatura o encarou, os olhos vermelhos faiscando sob a crina de ferro.
Ele partiu primeiro.
O golpe veio como um raio oblíquo, força e peso concentrados em um único arco. Atalais girou o corpo, desviou de raspão e respondeu com três estocadas rápidas — que mal arranharam a couraça do monstro.
O Herdeiro respondeu com um murro. Um soco, sem lâmina, que o arremessou dois metros longe.
Atalais caiu de costas, e o ar lhe faltou por um instante.
O campeão caminhava até ele com o machado levantado e desferiu o golpe com força tamanha que poderia abrir uma nova trincheira no chão — se não tivesse sido interceptado.
O som metálico ecoou como um trovão.
Hanzol o empurrou para trás, os olhos fixos no minotauro.
— Eu serei seu adversario.
A fera não respondeu. Apenas recuou um passo.
O campo voltou ao silêncio.
Agora, era outra presença que se impunha.
Os minotauros cessaram os gritos. Os aliados ergueram os olhos.
O herdeiro girou o machado. Hanzol flexionou os ombros.
O duelo estava formado.
O minotauro atacou primeiro.
Um giro alto do machado forçou Hanzol a se agachar, a lâmina cortando o ar com força suficiente para partir uma carroça ao meio.
O elfo deslizou pelo barro, girou o corpo, e tentou um golpe baixo — que encontrou a couraça. O som foi seco, metálico. Longe de ser suficiente para abala-lo.
Voltou a avançar, passo após passo, como um búfalo que não teme o sangue, que se lança em furia.
Hanzol recuava. Não por medo — mas por leitura.
Ele estudava. Calculava. Esperava o momento certo.
O campeão minotauro desferiu um novo ataque, horizontal, e Hanzol rolou por baixo dele, cortando a parte interna da perna da criatura. O sangue espirrou, grosso e escuro.
Um rugido. Um murro. O mundo girou.
Hanzol foi lançado ao chão.
O Herdeiro avançou para esmagá-lo com os dois braços erguidos.
Mas o elfo já estava de pé.
E nesse instante, o rugido veio.
Não era humano.
Era ancestral.
Um trovão saído do peito, invisível aos olhos, mas audível às almas.
O campo congelou. Os minotauros olharam em volta, instintivamente.
Hanzol avançou.
O primeiro golpe acertou o braço do minotauro. O segundo, a lateral da barriga, entre placas de osso. O terceiro, uma estocada na perna ferida.
A criatura gritou de dor, mas não caiu.
O combate havia virado.
A força cedeu lugar à precisão. A brutalidade à estratégia.
Hanzol girava ao redor dele como uma sombra viva. Cada ataque era um ensaio do final.
Quando o herdeiro caiu de um joelho, tentando respirar, Hanzol estava diante dele.
— Recue suas tropas, Renda-se.
As palavras tiveram o mesmo efeito que uma capa vermelhar balancando na frente de um touro. Um urro gutural tomou conta do campo de batalha e o minotauro correu com todas as suas forcas em direcao ao elfo.
Hanzol havia treinado a exaustao aquele golpe. Seu corpo ja havia memorizado cada uma das posicoes necessarias, cada passo, cada movimento de maos, bracos, pernas e as vibracoes que cada um deles gerava.
Por isso, executa-lo agora nao era mais uma questao de movimentos, seu cerebro ja sabia o que fazer e com o comando de seu pensamento, a vibracao percorreu seu corpo, queimando a Býma, a energia vital que flui em todos os seres, necessaria para a execucao da tecnica.
O espaco era curto, o impacto foi o maximo, e o espetaculo pode ser visto de longe. A aura verde se formando em seu entorno e ganhando a forma do leao, que havia causado tantos pesadelos nos minotauros durante a guerra, e apareceu engolir o herdeiro de Karruk por completo.
Um golpe limpo.
O corpo tombou como uma muralha ruindo.
Os tambores pararam.
Os minotauros recuaram.
Hanzol limpou a lâmina no próprio manto.
E voltou os olhos para o campo. Ainda havia guerra. Ainda havia sangue.
Mas naquele dia, a criatura que todos chamavam de sentença…
Foi julgada.
A cabeça rolou por alguns passos antes de afundar na lama.
E então, o som mais estranho possível para um campo de batalha: o estalo de respirações voltando.
O elfo estendeu a mao e ajudou Atalais a se levantar. Sangue escorrendo da boca e da testa, mas sorrindo.
Tibbin ergueu o punhal em triunfo, mesmo sem ninguém por perto.
Zul’jin, com o rosto coberto por fuligem, baixou os braços lentamente, como quem devolve a alma à terra.
Rhaenna, exausta, suja, com o braço ferido, soltou um riso seco, quase um soluço.
— Viva o leão de Turon — alguém gritou.
Os minotauros hesitaram.
A fera que os guiava, que era força e símbolo, agora jazia sem cabeça no barro.
Alguém gritou.
E então vieram os recuos.
Primeiro tímidos, depois em massa. Uma debandada suja, brutal, desorganizada.
Os aliados avançaram como uma onda, varrendo o campo de batalha.
Mas Hanzol não se moveu.
Permaneceu de pé, a espada baixa, o olhar distante.
Não havia orgulho. Nem comemoração.
Apenas o cansaço de quem cumpriu o que precisava ser feito.
Quando Zul’jin se aproximou, apoiando-se no cajado, disse:
— Não foi só um corpo que caiu hoje.
Hanzol assentiu.
— A vontade deles morreu junto com a fera.
— Voce foi um lembrete — completou Rhaenna, chegando logo atrás. — De que mesmo os monstros têm monstros.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, observando o campo.
E ali, entre os gritos de vitória e os gemidos dos feridos, entre o céu de cinzas e a lama de sangue, começou o fim da guerra.
Mas nenhum deles sabia…
…que o verdadeiro inimigo ainda caminhava nas sombras.
Este é o último capítulo publicado até agora.
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